Demoro ao me despedir. Quero evitar o sofrimento da partida. Apesar da vã tentativa é chegada a hora. Um abraço, um aceno? Não há consolo que baste. Apenas um imenso vazio que toma conta do corpo. Adeus.
Wednesday, 25 November 2015
Tuesday, 13 October 2015
Uma longa caminhada
Ali, onde ruídos não existiam, um frio cortante me atravessava. Pedaços que já foram meus despediam-se de mim. Adeus, disse. Juntei os cacos restantes com uma mão enquanto na outra segurava o meu café. Agarrei-me às poucas convicções que ainda me restavam, respirei fundo e caminhei vagarosamente em direção aos vestíbulos do desconhecido - local onde a palavra regresso inexiste.
Sunday, 27 September 2015
Visitas norturnas
De noite, enquanto a lua silencia, fantasmas batem à porta. Gentilmente lhes autorizo adentrarem a minha morada - eu que outrora hostilizei a entrada de qualquer intruso em meu recinto. São muitos. Vem de muito longe para me fazer companhia. Ao meu redor ficam e calados permanecem até que eu decida interagir, o que nem sempre acontece. Deixam-me a sós com minha solidão. Ficam atentos ao menor movimento dos meus lábios como se contemplassem um eclipse pela primeira vez. Nem sempre consigo lhes retribuir gentilezas. Há dias e dias. Quando o sol dá sinais de existência, eles se retiram com a certeza de que a primavera voltará. Esboço sinais de simpatia e jogo-lhes um aceno sem pronunciar uma sílaba. Já somos velhos conhecidos, as palavras não nos bastam.
Monday, 7 September 2015
Notas ao entardecer
De longe, avistara um jovem. Era um rapaz. Na praia, ele olhava para o horizonte, para um lugar onde que ele queria estar, mas que não existia. A doença de todo jovem é estar sempre estar just about to go, sempre à procura do que não há, em companhia daquilo que não existe. O mar há de lhe ensinar umas boas lições: a grandeza da vida...
Pintura: Marc Chagall
Sunday, 9 August 2015
Another brick in the wall
I was another brick in the wall. A tiny little thing, stuck with them in a surreslistic world: having to cope with not moving around and waiting for the Almighty, a chap that might not even exist.
Thursday, 30 July 2015
Constatação no anoitecer
Por mais que nos esforcemos a fazer parte da natureza, somos exteriores a ela, estamos à parte: nossa constituição é o anti-natural.
Saturday, 6 June 2015
A miséria da teoria ou o encontro dos miseráveis
- "Ô, Josué!, nunca vi tamanha desgraça: quanto mais miséria tem mais urubu ameaça." (Chico Science)
Sempre quando caminhava ao ar livre, um urubu - esses pássaros negros que levam consigo a mesma ganância pela miséria que nós temos - me seguia. Nunca comentei tal com ninguém, portanto nem é preciso dizer que isso é um segredo nosso, meu e teu, leitor. Certo?
Pois bem. Dia desses fingi-me de morto, assim o urubu deixaria de sobrevoar sobre a minha cabeça e tentaria saciar a sua sede com o meu corpo em decomposição, ou seja, a minha carcaça.
Quando veio num vôo rasante, percebeu que eu não estava morto. Ao invés de dar meia volta e desistir de mim, aproximou-se do meu ser e deixou-me ser... alguém. Estava, assim como eu, curioso.
Pois não?, disse-me este negro pássaro. Quero te fazer uma pergunta, repliquei. Por que, prossegui, persistes em me seguir? Houve uma pausa. Olhou-me como se já tivesse premeditado o nosso encontro. Mediu as palavras e finalmente disse:
Não vês que cheiras a carniça? Posso sentir essa fragrância de longe, isso eu te garanto. Ademais, continuou, não te portas como um vivo-morto? Tua rotina, teus passos contados que pisoteiam a mesma calçada há tempos... Nada resta em ti que não seja supérfluo, onde reside o teu mistério?
Sorri um riso amargo, meus dentes rangiam e minha meia dúzia de convicções provaram-se meras divagações, ao menos ali, sem muito fundamento. Isso me ocorreu em frações de segundo. Logo após alguns momentos de hesitação, enforquei o tal urubu e depois cuidei para que fosse cautelosamente enterrado com os seus comentários. Adeus, Mefistófeles!
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